Dentro do Entre
Dentro do Entre
Com anelares e indicadores


quarta-feira, março 31, 2004  

De ti
a noite por detrás do vidro embaciado
escuro líquido
a ser mar pelo quarto.

Um tudo
sem acrescento
sem mais que se lhe cole.
Dança a ser dança quieta
espera a ser espera sozinha.

posted by Cat S | 2:46 da tarde


terça-feira, março 30, 2004  

Sabes, Afonso,
a minha vida que se continuou
como afago dado à tua ausência.

Lembro-te muito
no dia e na noite
com corpo inteiro.

Um tudo sereno.
Jogo de embalo.


Afonso,
o tempo em excelência,
em demasiado.
E o que se espera
a ser coisa por saber,
a vontade dormente do Mundo
repouso agitado na sede
que é sede sempre
ou que é, Afonso,
marca no corpo.

posted by Cat S | 10:08 da manhã


quarta-feira, março 24, 2004  

Escrevo-te como quem lembra, como quem puxa da palavra o físico pretérito, já atrás do corpo que, embora parado da espera, se move num quê irremediável para a frente-distância.
Assim, na repetição cansada do momento partilhado dou-te, Afonso, uma espécie de vida: a palavra-sangue.


- Um instante poético
(ou um instante quebrado)
na vida tua
acabada em repentes que desprezo.
Desprezo.
Por terem mãos
e dentes
e sacos e correntes e ventosas
e que te carregam agora, inteiro,
por caminhos que te andam, assim,
sem que queiras tu andar por eles.
(sei que não queres).

- O percorrer voado das coisas em que o teu corpo não tocava, por não se reconhecer na articulação frágil, junta em acaso e não em certeza.
E saías, Afonso, descolado do chão. Braços em baixo.
Como se a natureza tua fosse a do Ar e não a da Terra.

E se foste dentro de ti mesmo,
se te conheceste na palavra solta
e no silêncio firme,
se estiveste no osso
e no sangue
(a correr o corpo todo)
estás, Afonso,
na água que imerge
e na água de cima.
Olha, Afonso,
a vida que corre sobre ela mesma,
o som contínuo do andar das gentes,
o estender das ruas sem outro terminar
que nao seja o não terminar nunca.
Afonso,
o todo imparável
dos ciclos acesos em tempos,
que se chovem pela mão do vento,
crescendo no vaso-mundo.
Afonso,
os corpos que se repetem,
que passam
passam,
mesmo com as mãos cheias
da anunciação da tua morte,
que sabias já perto
porque to disse a vida
em cumplicidades de ouvido.


posted by Cat S | 11:00 da manhã


quinta-feira, março 18, 2004  

- Fumavas?
Não sei se fumavas, Afonso.
O tempo muito preenche os espaços de manutenção pouca
E de quando em vez o vazio ao invés da certeza.

Fumavas.
Pontuo-te a boca com o cigarro
Porque eras de existência aspirante.
(toma, Afonso, uma cadeira a castanho-madeira, costas baloiçantes. Ela baloiça contigo.)
Eras de existência aspirante,
Sentavas-te calmo na cadeira a castanho-madeira com as costas baloiçantes,
E ela baloiçava contigo.
Os dois num movimento sozinho, Afonso,
Porque o resto do Mundo
Estava sentado contigo.

O cigarro na boca que calavas ainda um momento
A dar voz salivar a cada palavra que sustinhas ainda.
E então aspiravas,
Muito,
Tudo,
Viagem do Mundo pelo teu sangue,
O fumo das coisas no sigilo pulmonar,
Infinito de matéria no corpo teu.
E o Mundo ao Mundo,
Um todo melhor ao todo,
Que devolvias novamente
Num sopro longo.

O Momento que se inicia.

posted by Cat S | 12:25 da tarde


quarta-feira, março 17, 2004  

Bastaria um pouco de voz
Um pouco de mão estendida
Na hora lenta
De tempo redondo.

Um pouco do que tiveres
Do que quiseres,
Para embate sereno
No que de mim te espera.

Retorna-me
O que tiveres em sobra
O que destinas aos cantos
Erguendo-me
A braços teus.

posted by Cat S | 11:37 da manhã


quinta-feira, março 11, 2004  

Não te sei a nascença, nem precisar a idade do corpo.
Chegaste-me já tardio, de pele vivida a contar histórias quando sorrias.
E sei que ficaste, assim, como coisa cravada fundo na carne, no momento em que passaste a porta, como se soubesses – e eu a sabê-lo também, depois – de uma qualquer pertença à minha vida, lugar marcado, cruz a cor viva marcada na tábua do chão.

Pousaste as malas
E Ocupaste.




E houve uma tarde.
o dia a apagar-se, Afonso,
o dia a despedidas acenadas
em insuficiências de luz.
E disseste – de novo a manhã -
e de novo a manhã, Afonso,
a sair inteira
da palavra Tua.

posted by Cat S | 10:39 da manhã


terça-feira, março 02, 2004  

De tarde
com quadros feitos
do acaso com que espalhavas as cores no chão.
Talvez também eu a ser traço largo por ti imaginado,
na confusão apetecível de braços teus, de braços meus.
Ainda por lá estamos
porque me deixo
ou porque te trago
na tela toda que era tela e tudo o mais,
tudo o mais
que se soubesse
no momento aberto que se fez,
no instante falso que não é instante, é continuidade,
no canto da tarde em que arrumámos os corpos.

Por todo o tempo.
Contigo.

posted by Cat S | 11:20 da manhã

Archives

Content

Links

Mail