Dentro do Entre
Dentro do Entre
Com anelares e indicadores


quinta-feira, novembro 27, 2003  

Chapéu no carro.
Carro em Sintra.
Eu em Lisboa.
19h, a chuva, a chuva...
Casaco impermeável que deixa de ser impermeável.
Bota trá-lá-lá-e-isto-e-aquilo-e-assim-e-assado-e-que protege-e-que-aquece-e-que-dá-bom-andar-e-tudo-e-tudo-e-tudo...e que deixa passar a água.
Cadernos que já não são.Pasta de papel.
E calça que pinga, assim, feita torneira.
Ai...eu, ontem, feita pinto nas ruas de Lisboa...
E gostei.
E sim, chapinhei.
Hoje o chapéu aqui no canto, mas...
Vou esquecer-me dele mais vezes.

posted by Cat S | 11:16 da manhã


quarta-feira, novembro 26, 2003  

À Tua Ausência

Que é de ti e da tua vida?
Que é do tempo em que trazias o corpo a bater à porta?
Apareces-me meio confuso,
o sublinhado já gasto pelo pretérito-mais-que-perfeito dos dias.
Dois passos atrás
e os percursos ainda cruzados,
Tu ainda.
Sei que morreste num dia qualquer,
assim, com sol, a terra a girar,
tudo a correr como corre sempre
(tu a partires, tu a deixares de ser, tu-ausência, tu-nada e tudo a correr como corre sempre)
mundos de fora ainda de pé,
nenhum abalar cósmico.
Tu que te foste
e eu a ficar com uma caixa cheia de ti nas mãos,
e eu a querer reinventar-te a carvão,
a barro,
a tinta,
fazer-te os ossos a histórias e a futuros prometidos,
colar-te num outra vez
aos dias soltos
e aos dias meus.

Dou-te a palavra muda,
o escrever de linhas.
E ficas a saber (se não a ler, intuindo) :
fazes-me falta.

Ao A.G.

posted by Cat S | 12:44 da tarde


terça-feira, novembro 25, 2003  

Comboio e casa.

posted by Cat S | 4:18 da tarde
 

A tarde que desce
e que se fecha,
sepulcro de luz e imagem,
contusao absoluta da pupila dilatada
que lanca, agora,
apelos nervosos ao tacto.
Um borboletear de eixos confusos
nao vistos, imaginados,
que vagueiam em arco e em argola
morrendo no apagar macio
da membrana que pisca.

Mastigo o aroma
e a madeixa de cabelo.
Um balao entre incisivos
que puxa o corpo e a vontade
ate a abobada gasosa.
Tectos, cumes e montanhas,
corpos levadicos
em tumultos desajeitados.
Cumprimento o declive e a aguia
antes do picar de alfinete.
O regresso.

Entre o longe e o perto
disse-me a tarde de ausencias que se preenchem a azul a pingar laranja.

posted by Cat S | 12:05 da tarde


segunda-feira, novembro 24, 2003  

Pudera eu encerrar a sucessão completa de imagens que apanhei,
ligar a lápis a fisionomia ao nome que te deram,
ter a lucidez cinematográfica dos percursos já terminados.
Dedos neurológicos a sacudirem poeiras perniciosas,
manutenções de interior a conservarem a continuidade do todo.
Contar-te sobre a vírgula e sobre a reticência
numa precisão de certezas monótonas
que afastarias com o suspiro enfadado.
Não deixar nada pelo caminho
(quantos pedaços de algodão pendurados em ramos?)
ter memórias-objecto
tinindo avisos auditivos
quando caíssem dos bolsos.

posted by Cat S | 3:19 da tarde
 

A sequência ascendente
desenhada por ti e pela praia.
Chegaste tardio,
num depois desconfortável.
Por agora quero-te aqui
assente e direito
no delírio brando
e na sobriedade absoluta.

Quero-te
em
toda
a
parte.

posted by Cat S | 3:13 da tarde


sexta-feira, novembro 21, 2003  

Ai os acentos, os acentos...

posted by Cat S | 11:47 da manhã
 

Cheiras

...ao suor de maos juntas,
a viagem de corpos
erigida na ansia de dias plenos.
Cheiras a sangue mais vivo
porque marcado pelo sonho espraiado entre dedos
ate a penetracao de veias.
Cheiras,
no banco que deixaste vazio - mas nunca vago - ,
na roupa de noite que o corpo sustentou,
no sorriso largo que se desenha no espelho,
aromas de boca soltos da fragrancia que es.
Cheiras a redescoberta do Proposito,
essa falacia ferrea
que era o meu embate de corpo.
Cheiras a conhecido, ao ja visto,
podendo eu cheirar-me em ti,
na palavra repetida,
no corpo moldado.

E,
na estaticidade dos dias,
cheiras a sua eternizacao.
No final de tarde,
cheiras a sombras que se levantam e se firmam,
sendo mais em forca e em presenca
do que a materia criadora.
Cheiras a imprevisibilidade do fulgor de dedos
no dialogo do sempre
de sempre.
Cheiras a zignias que nunca vi
e a agua de jarro em que nunca as pus.
E,
aquando da mudanca de ventos,
cheiras a memorias, a ausencia, a quem nao esta.
Cheiras a poesia que corre no papel
- este texto o teu cheiro -
cheiras a tinta de caneta
e a momento inspirado.
Cheiras a tempo pouco,
a tempo longo,
a tempo presente
e - perfume tenue, anunciacao discreta -
a tempo futuro.

Cheiras ao que se ama
ao que se quer.
Cheiras a tudo isto
e em tudo isto
porque - presta atencao -
porque na minha pele
o perfume teu.

posted by Cat S | 11:46 da manhã
 

Queres diluir-te na acumulacao acida de gritos,
desintegrar-te, depois, na sequencia liquida - mares fortes - ,
dar a outro - com avisos baixinhos - o ritmo psicotico
com que evitas o cruzar de corpos no corredor,
a porta que abres e fechas (uma danca na fechadura)
na incerteza tremula de humores,
de trejeitos de bracos.
Queres ir na tendencia deslizante do empurrao que recebes,
escorregar pelo ralo,
ocupado por travos amargos -
fios de cabelo
que tiraste da boca.

Ir, ir...

...pelo vortice nos sentidos,
pela presenca excessiva do todo que se oferece,
se mostra,
pela vertigem da aparicao das coisas,
uma seducao ebria com sabor a maresia,
um toque salgado na esquina dos labios,
o dialogo que da a curva e se espraia

estende, distende, divaga,

como distorcao, dissonancia
do que es...
...pensas ser.
Ecos dispersos na confusao gasosa
no intimo da dissidencia da materia,
no amago da discordancia organica,
um dissolver de tudo...
...do Tudo.

posted by Cat S | 11:20 da manhã


quinta-feira, novembro 20, 2003  

É impressão minha ou puseram asas nos dias?
Passam terrivelmente depressa...

posted by Cat S | 3:13 da tarde
 

Um fosforo no chao
arqueado pelo arrefecer fumegante
tem ainda pequenas frequencias luzidias,
valsas luminosas
onde danca a flamula incerta,
doente,
antes que o Fim e o Fado
se encontrem na interseccao mortal.

posted by Cat S | 11:26 da manhã


quarta-feira, novembro 19, 2003  

Uma mão de memórias amachucadas
que se abrem às vezes
(quando o tecido cede)
surpreendendo-me sempre no contorno suave,
no canto que se desenha tímido,
faíscando a medo
pequenas mágicas de cartola.
Adivinho-te nos braços (conheço-os bem)
que cruzas e enfaixas ao alto,
(tu-maestro, dirigindo, encaminhando)
um ramo de certezas que tens como tuas,
pequenos pedaços de nadas, digo-te eu,
que aumentas com as órbitas crentes.
És a promessa de um espaço preenchido,
o conforto de uma presença imaginada,
e mesmo não te sabendo real
chega-me a intermitência da dúvida.
A tua repetição a cada virar de pescoço
tu-inteiro nas conversas soltas feitas imagem,
ainda marcadas nas paredes do café,
na gordura do cigarro que piscava entre palavras.
Vou lá de quando em vez
saber de ti,
e levo do chão e na sola
migalhas tuas
que a vassoura esqueceu nos cantos.
Não tenho a certeza do teu corpo,
a resistência do músculo que empurra teimosias opostas,
mas nesta noite,
nesta praia,
mesmo não sabendo onde estás,
sei-te comigo.

posted by Cat S | 9:58 da manhã
 

Entre Corpos e Fogos

Um berlinde lunar
com feixes delirantes
deixa cair (suave, suave) um guizo plúmbeo
que atinge,
num trajecto sibilante,
a mão aberta.
No meio do quadro pintado a mar e a areia
há um desacerto de contornos
que passeiam dentro da gola alta
arredondada pela caxemira.
A cada passo uma repercussão luminosa
que não vejo, sonho,
retorcida no caleidoscópio noctívago,
no cilindro errante
colado com sedimentos de césio e damasco,
que depluma o amontoado real

revolvendo, reclinando, recortando
(com uma tesoura salmão)
até que nasça, novo e soberano,
o terceiro Hemisfério.
A blasfémia solene
à tua certeza.

Um toque solto chega à berma do corpo aquático,
fluindo na deflexão desenhada em tons baixos.
Um pousio acordado entre algas e sabores salinos
que sacode, olhos abertos, os ombros,
o casaco
e a sentinela.

A noite
que vai crescendo
misturando botões de camisa
e vozes sossegadas
que descansam nos bancos.
Evocações cítreas
que descem pelo braço
dando de beber, depois,
à reconciliação de vontades
que crescem soltas na caligrafia física
inscrita (a duas mãos) no corpo cheio.

Sobressaltos bicolores
que entornam bálsamos de cores vivas
em cantos encerrados em cantos,
em esquinas debruçadas sobre esquinas,
que desistem dos ceptros,
dos cajados
e das centúrias
num suspiro rendido, submisso,
à saudação da noite,
dos dias
e da vida.

Gemidos de búzio
tremores de cais
arlequins numa confusão de pernas
em cima do baixel incendiado
que espalha, entre a chama e o vento,
dálias quentes para quem quiser apanhar.

Esticaste tu uma mão
e com a outra alongaste-me o braço.
Deixei o verbo dissonoro,
a palavra desnecessária.
A noite percorreu-me com a urgência do momento
e tu com ela...

posted by Cat S | 9:43 da manhã


terça-feira, novembro 18, 2003  

Hoje o silencio escrito.

posted by Cat S | 11:48 da manhã


segunda-feira, novembro 17, 2003  

Espalho-me sobre o chão do quarto e vou


até à convulsão corrosiva de dialécticas atrasadas,
a dosagem excessiva do elixir cerebral
que revela e que inflama.

No êmbolo que me escolta por hoje (com um manípulo onde agarro a mão)
pratico suaves exercícios de regresso, de retorno,
onde cortejo o fonema confuso e a falena imaginada,
nidifico a matéria corpórea e o resto que sobra - a consciência espectral -
numa reprodução, cópia, que embrulho a gaze,
e que,
não tendo a textura,
tem, embalsamado, o lampejar jacente.

Hasteio o corpo até à verticalidade e estendo o braço até á varanda

onde a sobreposição de tempos
e a dualidade de imagens
se mesclam até à nitidez da evidência.

O declínio mudo da vontade de fumegar a palavras o momentâneo que se aprisionou,
a realidade penetrante tornada pretérito flutuante
e
antes do passado conjugado, composto, um presente isolado no poro individual,
o gesto de boca congelado pela impossibilidade de elipses verbais,
embranquecido, agora, pelo dormitar quieto que não conheceu o despertar musicado,
o deflúvio gorgolejante da história que sai solta.

A mão na fronte, o pender cansado, suplicante perante a evaporação da dádiva

A não partilha de fracções dardejantes,
o cordel dançante
que não se estabelece, não se prende.

Poder eu dizer-te de mim, esfatiar-me em equiláteros maciços, tocáveis

Abater essa interrogação
nunca respondida,
nunca satisfeita.

Navegar-me pelo meio de olhos atentos
na correnteza do concreto e do objectivo,
ser incessantemente descoberta por mãos que incidem certas na névoa,
denunciar-me em escaparates de esquina,
vitrinas no metafísico e do imperturbável
escaldadas pela troca estridente de comentários levianos.

A noite vai alta e o espasmo mental vai-se dissipando agora em suspiros exaustos

Encerrando em nivelamentos conciliadores
o corpete noctívago de desvarios latejantes,
a ilíada crescente na mão vazia,
a disjunção minha de mim,
apaziguando,
com investidas suaves de sono,
o corpo
e a vontade.

posted by Cat S | 3:20 da tarde


domingo, novembro 16, 2003  

Ode Musical
(A ti, em graves e agudos)



Há uma cadeira que acompanha o piano
no fim do quarto.
Se o silêncio se sentar na cama,
ouvem-se cumplicidades mudas entre as madeiras vivas.
Os bemóis redondos
morrem num fechar de melodia,
quando embatem distraídos nos espinhos da cal.
Há um Orpheu adormecido na terceira tecla
que ergue agora o pescoço musical.
Com ele uma lira tecida a pestanas,
vibrando declínios entre lá e ré,
onde tempos encerrados pelo Tempo
dançam valsas eufóricas com pés opalescentes.
A letargia da matéria,
sentada desde sempre em bancos esculpidos a pinho,
orquestra agora tactos agradecidos
pelo despertar dos poros tocados por sonos teimosos.
Dançar de cima para baixo,
de um lado para o outro,
com o corpo todo
a transbordar excessos com sabor a seiva.
- nasce uma oitava verdejante -
Passar com a pele
na pele das coisas,
misturando calores
que se aquecem uns aos outros.
Seguir a linha oblíqua
que se estende numa verticalidade inclinada
para além do alcance.
A cautela de silêncios deixada pelo caminho,
um abandono feroz de um recanto de quietude,
onde a boca cosida admite a linha que cose,
manchando a sangue
a linha transparente
que escorre agora
em tons de vermelho.
O violino que se volteia por entre curvas de volúpia
atinge o parapeito,
de onde puxa, voraz, o Universo passivo,
o ventre oval,

que verseja, agora, em rodopios orgíacos,
cânticos viçosos
ziguezagueantes na melodia.
Cresce uma vertigem uníssona na artéria pulsante
que se espraia até á contracção da vértebra
como o óleo que percorre vagaroso as extremidades
deixando o corpo ofegante
que transpira nas partituras de tinta
gotículas leitosas de orvalho
tocadas agora em pianíssimo.

posted by Cat S | 9:14 da tarde


sexta-feira, novembro 14, 2003  

Por aí,
Com dedos musicados
Ou dedos musicais,
Nas coisas que recebem a voz
Pelo toque da carne.
E hoje tudo me parece assim,
Música,
Viagem,
Tudo a fazer-se vento
E a entrar-me pela janela.
E hoje sou corpo misturado
E matéria de embate
nas peles que se acolhem.
E juro-me minha
E do que me sei,
Por me sentir tanto no peito.

posted by Cat S | 4:05 da tarde


quinta-feira, novembro 13, 2003  

A meio de uma aula.
Entre as sete tradições da comunicação, interaccionismos simbólicos, determinismos tecnológicos e afins, lá vou sobrevivendo.
(mentira. Isto é um claro pedido de socorro)

posted by Cat S | 4:46 da tarde


quarta-feira, novembro 12, 2003  

Serei a areia que pisas sem que me toques,
A melodia que ouves sem que me cantes,
A verdade que afirmas sem que me saibas.
Um tudo em lado nenhum.

E enquanto assim estiver,
Feita búzio, caudal, tempo,
Vou esfumar-me em aromas de chá
E envolver-te os ombros em arrepios suaves,
Colorindo num outra vez
As crenças que abandonaste em encerros apreensivos.
E andar por aí,
Incendiando as gentes a azeite morno,
A abanar corpos e marés distantes
Para voltar
(num depois breve)
A um mundo que nasceu de novo.

posted by Cat S | 9:44 da tarde
 

Partes tuas emprestadas
no braço que ergo,
que firmo.
E nos dias novos que nascem
há uma promessa em cada ombro.
(e tu que te levantas mais cedo, pé na Serra, para as pores lá)

A ti, por tudo.

posted by Cat S | 9:39 da tarde
 

Longo


Há um desencontro forçado ( planeado? )
meio-magnético, meio-criado,
no trajecto-tracejado das peças.

Um repelir axadrezado
e uma lasca meio-solta,
meio-presa,
que se ergue, curiosa,
assistindo atenta ao peão de mogno
que descai a sobrancelha
num silêncio mais preto que branco.

A perna pousada na cadeira
assiste invejosa ao cabelo que voa
querendo ser mão para lhe arrancar uma pena,
abandonando,
num adeus desarticulado,
o tronco sem ramos
à imobilidade aborrecida,
inconformada.

E em volta do copo que treme cadências oceânicas,
há um desfiar outonal puxado a cuidado,
linhas finas que se misturam,
depois,
numa sopa hialina com efervescência púrpura.
E Júpiter abraça Urano num consenso cósmico,
aliando o azul profundo
a ocasionais pigmentos malagueta,
que dançam prosápias no eixo das coisas.

Há, vejo, um hífen impreciso
que separa a palavra da imagem,
distanciando o que ouves e o que tocas,
o que vês e o que vives,
e que cria,
e que te cria,
uma realidade esdrúxula
a que não renuncias.

Entras por ela adentro
como quem toma um banho de mar.
A pele absorvida,
toda,
pelo líquido salgado
numa avidez gutural,
que te afoga a garganta
com gorgolejos primaveris, floreados...

E puxas o laço pernicioso,
desembrulhas-te de um véu de pálpebras,
e enrolas-te ( dedos atados)
no escárnio dos elementos.

Dentes invisíveis que estalam sorrisos
que embatem duros
na fragilidade do corpo.
Um esbracejar, teu,
meio-rendido,
meio-tímido,
que a medo solta um grito
mudo no tom.

Repartes-te pesadamente em ténues miragens de fumo.
Uma miríade gasosa que aspiras, depois,
para que te veja inteiro.

E eu agarro em pó
e envolvo-te novamente em névoa
para que ela abrace
o todo confuso,
realçando-lhe, devagar,
as partes esquecidas pelos olhos:

A malha tecida a fios vivos que são,
que foram
a tua vida.


posted by Cat S | 9:36 da tarde
 

Na calma dos dias
Vou acontecendo morna, media, recta.
O corpo mais adiante,
Ziguezagueando na continuidade absurda
de historias velhas com tempos renovados.
E da-me este nervoso de maos,
Esta impaciencia arterial...
Um querer de tudo
do tudo.

Num banco
Enquanto a vazante de mar acontece.
Entorno-me por la e vou tambem.
Regresso depois.

posted by Cat S | 10:57 da manhã


terça-feira, novembro 11, 2003  

Caminhar, caminhar, caminhar...

posted by Cat S | 10:27 da manhã


segunda-feira, novembro 10, 2003  

Recomeço a aprendizagem visual depois do intervalo de contactos.
Tudo é aquilo que se quer, e não aquilo que se vê,
havendo uma pré-existência definida, a que se cola,
num depois nebuloso,
o prolongamento muscular e metafísico do que nos sentimos.
Como dizer-te, então, sobre as redes envolventes,
sobre a decifração de espaços?
Como reatar o aceno de cabeça e as bocas contentes em rasgos de cumplicidade?

posted by Cat S | 5:28 da tarde


domingo, novembro 09, 2003  

Dizer-te


Uma linha e uma clave de sol, as duas num concílio de forma,
o silêncio dançante (com pés impossíveis) que te dá o aceno de cabeça.
Começas aqui.

A aliança dos corpos cinzelada na duplicidade – simultânea, desencontrada – de vontades,
juntei-me a ti – assim, como quem quer – e penso-me agora como um eclipse lunar com braços imaginados
ou lembrados – os teus, porventura –
a abarcarem o lugar pendurado que reclamo como meu.
Guarda o fio.
Ficará erguido de qualquer forma.

Invento-te a perfume e a sentimento nas horas vazias de ti
enchendo o ar a desdobramentos espectrais,
dunas salpicadas a geada – tu feito assim, agora –
num espaço que não existe
porque ninguém o adivinha.
Toma um segredo.

Estarás sempre onde não estás,
repartido em plurais desmaiados no contorno,
delitos meus
ou
embalos edificantes descaídos no deflúvio de tempos menos longos
- ponteiros a chegarem de malas na mão -
enquanto calo a palavra
que sobe até à irís que te fixa.

Pó de carvão
e algodão embebido em desfazeres líquidos.
assim, meio certo
meio por saber,
tira das mãos o que quiseres,
estão estendidas.

Estou,
estamos,
no além elíptico que se conhece enquanto se vagueia,
na massa incorpórea suspensa a bicos de corvos,

no derrame das égides que ficaram sem a força
sem a vida
cintilando o jazer em brilharetes de final de tarde.

Assim, em tons repousados,
na troca de senha que te voou da mão,
na espera atenta flauteada no tremer de perna,
dou-te não a palavra,
mas a sua sombra.



Schhhhhhhh......
Ouve-me por aí.



posted by Cat S | 6:11 da tarde
 

(A)Nulo


Pegas, pega-se, numa fracção de tempo,
num episódio solto, preso ao espaço por onde os olhos passaram
e guarda-lo, guarda-se, numa arca inventada pelo agora,
de onde vais tirando, de onde se tiram, pequenas coisas pequenas,
(como quando a língua passa pelo dente)
azuladas pelo ponteiro que entretanto passou
e que,
ao passar,
fez o Tempo.

Hoje eram homens e pássaros
e milho e sonhos (talvez)
que estavam, repousavam, entre duas arcadas
suspensas pelo chão que não vi.
Um jardim que a janela separou da mão,
o toque atrasado por movimentos discordantes,
quase contrários,
que o comboio, num pouca-terra acelerado,
impôs à surpresa súbita da sobrancelha.

Eram homens e pássaros e milho e sonhos
...talvez...
todos num voo parado
com asas e braços emprestados
que o amarelo dos bagos delineava,
porque os pássaros comiam os sonhos e não o milho,
deixando-os sair, depois,
já compostos, digeridos,
pela ponta das penas
que tocavam os homens,
ou que os homens tocavam.

E houve uma viagem dentro de uma viagem,
uma presença que se criou
e que deixou uma outra (já venho, está bem?).
A cabeça presa por um elástico de cabelo,
ficou parada,
seguindo atenta o esvoaçar invisível
do movimento que (percebo agora)
nunca existiu.

Como nunca existiram nem homens, nem pássaros, nem milho, nem sonhos...
Foi só,
era só,
um comboio apressado em fugir à sombra
comigo à espreita numa janela sozinha
que, numa monotonia pesada, pensante,
respirou uma respiração colorida,
colando ao vidro o reflexo enganoso (vejo agora)
daquilo que eu queria,
queria tanto,
dar à passagem.




posted by Cat S | 6:09 da tarde


sexta-feira, novembro 07, 2003  

O final de tarde,
O instante de membros trovejantes
Que suspende, trémulo,
Momentos de espera pelo quê indefinido.
Não sei se teime pela luz,
Ou se anseie pela noite.

Há um ar salino
E um breve - não o agarrei - cheiro a romã,
E tudo o resto é cheio de ti,
Segundo astro no centro do voo em que sigo
Agora.

Na abundância da imagem a trégua de corpos
Que deixa, no instante que me percorre agora,
O sincronismo de massas
Num silêncio repousante.

Esse tumulto de pele que usas como turbante,
Um véu de mãos quentes,
Um xaile luminoso de toques tépidos,
Um silvo rúbeo que dança com o ouvido.

É tua a serventia de corpo,
O cair de réplicas seguras a dedos,
O tráfego metafísico de pontas e de meios,
É teu o mistério que encerro em olhos desviantes.

E julgo-me certa
Dessa espécie de estado indivisível,
Esse pintado - porque feito, realizado - unicolor,
Unificado no turvo que é a comunhão,
Na turbulência morna do encontro de matéria.

Deixo que a palavra siga com a vazante que acontece,
Esperando um acaso de águas em que a garrafa chegue até a ti,
E até lá
Guardo-te a saliva com que as teci,
Sussurros líquidos
Dados à mão
Ao ouvido
Porque...

...hoje encontras-me no impulso de linhas.

posted by Cat S | 9:48 da manhã
 

Tudo o que é certo vai acontecendo sozinho.

posted by Cat S | 9:38 da manhã


quinta-feira, novembro 06, 2003  

Dizes-me muito e dizes-me mais na palavra que guardas no bolso.

posted by Cat S | 3:39 da tarde
 

Um fazer de novo, uma nova cara...

posted by Cat S | 3:00 da tarde


terça-feira, novembro 04, 2003  

E às vezes baixo os braços como quem se rende,
porque aquando do eu comigo sei-me insuficiente
e apenas ininterrupta,
como quem solta e não como quem dá,
como quem quer e não como quem é.

posted by Cat S | 2:58 da tarde
 

Vale a pena...

posted by Cat S | 11:24 da manhã
 

Ontem a noite tive mais um daqueles encontros tenebrosos com os autocarros aqui da zona.
É que, para quem por aqui anda de carro, os motoristas dos autocarros constituem um realíssimo perigo de vida.
Da entrada pela minha faixa, safei-me com uma guinada de volante.
Sr. Motorista, se por algum feliz acaso está por aqui, a passar a vista por estas palavritas, olhe, va à *****.

posted by Cat S | 9:56 da manhã


segunda-feira, novembro 03, 2003  

Ontem havia espuma pela praia.
Passava pelos pés e passava pelos olhos e apeteceu-me que passasse pelas mãos e que por lá ficasse, feita espuma e feita momento.
E deixei o rasto de solas pesadas marcado na areia.
Quem quiser que me encontre.

posted by Cat S | 5:57 da tarde


domingo, novembro 02, 2003  

Penso-te do longe que se faz de dois espaços preenchidos,
o sítio onde estás,
e o sítio de onde te penso,
esperando-dedos apertados-
que o meio entre espaços seja feito a declive.
Ergo o queixo e procuro-te a distância.

posted by Cat S | 9:11 da tarde

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